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Lateral ex-ASA é banido do futebol após oferecer R$ 5 mil aos colegas para entregarem partida Victor Hugo

Lateral ex-ASA é banido do futebol após oferecer R$ 5 mil aos colegas para entregarem partida

A tentativa frustrada de manipular o resultado de uma partida do Campeonato Paranaense de 2018, acabou com a carreira do lateral-esquerdo Thiago Almeida Vieira, o Thiaguinho, 28 anos. O Pleno do STJD (Superior Tribunal de Justiça Desportiva) decidiu nesta sexta-feira (05/10) por unanimidade banir o jogador do futebol. Ele até poderia recorrer ao Tribunal Arbitral do Esporte na Suíça, mas não tem dinheiro para isso. 

Levar um caso ao TAS custa em média 50 mil francos suícos, cerca de R$ 200 mil. Thiaguinho nem sequer teve os recursos para comparecer à sessão final nesta sexta-feira. O próprio advogado Fábio Carzino indicou no julgamento, quando lembrado da possibilidade de revisão da pena em 2 anos, que será complicado para o jogador retomar a carreira - decisão que, no entanto, reforçou não está tomada pelo atleta.

Thiaguinho disputou o Campeonato Paranense pelo time do Rio Branco de Paranaguá que fez uma campanha surpreendente no 1º turno quando chegou à final contra o Coritiba e decepcionante no 2º. O clube acabou livre de punições, o que também foi votado por unanimidade sob o argumento de que denunciou a tentativa de fraude. 

Logo após o fim da sessão, Fábio Carzino reconheceu que Thiaguinho não terá como recorrer na Suíça, mas lembrou que é possível tentar reverter a medida no futuro buscando a reabilitação do atleta. Além de ter sido banido do futebol, Thiaguinho foi condenado a pagar uma multa de R$ 10 mil. 

- Temos de ver se ele quer continuar a carreira de jogador, já tem 28 anos. Tentaremos ver algum mecanismo para ver se conseguimos um parcelamento para metade do valor e quem sabe converter o restante em alguma medida de interesse social, ou até algum trabalho específico voltado para a questão de manipulação de resultado. O atleta ficou bastante abalado. Agora vou conversar com ele para ver os próximos passos.

O lateral estava lesionado e não participou da última partida do Rio Branco no campeonato em 21 de março contra o Londrina, fora de casa. Mesmo sem ter entrado em campo, Thiaguinho teve papel determinante no destino do time de Paranaguá.

Horas antes do jogo, Thiaguinho telefonou para dois de seus companheiros de time – primeiro falou com o atacante Rodrigo Jesus, depois com o goleiro Flaysmar, que dividiam um quarto na concentração.

De Recife, sua cidade natal, onde estava, o lateral fez uma proposta indecente: R$ 5 mil para cada um em troca de entregarem o jogo para o Londrina. Os dois jogadores reagiram com indignação. Rodrigo Jesus respondeu:

– Eu não faço isso. Nem por R$ 1 millhão.

O telefone então foi passado a Flaysmar que rebateu no mesmo tom:

– Eu jamais faria isso.

A resposta dura e imediata de Flaysmar e Rodrigo Jesus interrompeu o plano – que consistia em cooptar quatro jogadores do Rio Branco. Como a conversa foi interrompida no início, não foi possível saber o que se esperava dos atletas – não correr, se fazer expulsar, cometer pênaltis.

O Rio Branco foi derrotado pelo Londrina por 4 a 1. O acordo não foi fechado, mas a história correu. Não demorou a chegar aos ouvidos da comissão técnica e da diretoria do Rio Branco. Thiaguinho então tentou resolver o problema: criou um grupo de whatsapp com dirigentes do clube e contou a eles sua versão da história.

Em Recife, durante um almoço num restaurante, o jogador foi abordado por um homem que ele identifica apenas como "bicheiro". Thiaguinho não deu entrevistas por orientação de seu advogado. Quando foi ouvido no inquérito aberto pelo TJD-PR (Tribunal de Justiça Desportiva do Paraná) para apurar o caso, o lateral-esquerdo contou:

– Ele [o "bicheiro"] tomou conhecimento que eu era jogador do Rio Branco e veio falar comigo [...] Não tenho conhecimento [do "bicheiro"], fui abordado uma única vez, ele usou o fato de eu ter os contatos dos jogadores [...] Não teve proposta nenhuma, ele só usou meu conhecimento e meu contato para passar aos jogadores o que ele queria. As ligações foram feitas durante o almoço [...] Liguei, a pessoa que fazia a proposta ficou na frente falando, e eu ia repassando [...]

Ao contar essa história num grupo de whatsapp, Thiaguinho produziu as provas que acabaram por incriminá-lo. O artigo 242 do Código Brasileiro de Justiça Desportiva prevê eliminação e multa de até R$ 100 mil para quem "dar ou prometer vantagem indevida que, de qualquer modo, influencie o resultado de partida". O parágrafo único diz: "Na mesma pena incorrerá o intermediário". O presidente do Rio Branco, Leandro Ribeiro, foi quem denunciou o caso ao TJD do Paraná. Na avaliação do dirigente, a queda de rendimento do time no segundo turno do estadual esteve diretamente ligada ao caso de manipulação de resultados.

– Tivemos um primeiro turno espetacular, pela primeira vez na história do clube chegamos a uma final de Série A. Por termos sido vice-campeões do turno, muitos jogadores receberam propostas e saíram. Depois tivemos uma queda inexplicável. Sabíamos que algo não estava normal, mas só conseguimos identificar o problema no último jogo do campeonato.

O atacante Rodrigo Jesus que ouviu e recusou a proposta, disse ao GloboEsporte.com nesta semana que Thiaguinho pareceu "ingênuo" durante a conversa.

– Eu não senti maldade dele. A gente não era muito de conversar, mas no grupo ele era o cara que alegrava todo mundo, que fazia piada, contava histórias com um sotaque engraçado.

Tanto Rodrigo Jesus quanto o goleiro Flaysmar hoje defendem o Arapongas, da terceira divisão do Campeonato Paranaense.

– Os caras sabiam que a gente estava em situação difícil, com salário atrasado. Mas para mim não faria diferença nenhuma os R$ 5 mil. Como é que eu iria conviver com isso? Eu tenho minha índole – disse Rodrigo Jesus.

De acordo com uma pesquisa Fifpro, o sindicato mundial de jogadores de futebol, 6,6% dos jogadores já receberam algum tipo de proposta para participarem de manipulação de resultados. A entidade avalia que o número deve ser ainda maior, já que nem todos denunciam o assédio. Os mais expostos são jogadores mais velhos, de times pequenos, de campeonatos que não são transmitidos pela TV.

Thiaguinho já havia sido punido pelo TJD do Paraná em maio. Sem poder jogar, tentou ganhar a vida como motorista de Uber. Segundo pessoas próximas a ele, foi assaltado duas vezes em dois meses e desistiu. Hoje, ele ganha a vida vendendo queijo em Recife.

Sua defesa recorreu ao STJD. O julgamento começou na semana passada, foi interrompido por um pedido de vista da auditora Arlete Mesquita e retomado nesta sexta-feira.

 

Da redação com GE

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