17/05/2019 às 12h35min - Atualizada em 17/05/2019 às 12h35min

13 de maio: O que comemorar?

O 13 de maio é uma data que precisa ser lembrada, remorada e acima de tudo, refletida

Thiago Abel Pantaleão

Reprodução Internet
O 13 de maio é uma data que precisa ser lembrada, remorada e acima de tudo, refletida. Foi nessa data, em 1888, que a escravidão foi oficialmente abolida em todo território nacional. Em uma jogada política, o imperador Dom Pedro II fez o nome da filha, e não o dele, estampar os jornais como a redentora do “povo de cor” (expressão usada para se referir a população negra).

Os tambores ecoaram Brasil afora para comemorar o fim de uma era nefasta, sombria, desumana e absolutamente livre de qualquer espírito caridoso, mas a realidade logo bateu a porta dos que ganharam das límpidas e caridosas mãos da princesa redentora a tão sonhada liberdade. Isso foi o que estudamos lá na escolinha com a tia, visão absolutamente desconectada da realidade dos fatos.

A abolição se fez como circo, sob os holofotes, sob as mídias nacionais e internacionais que celebravam o momento e que simplesmente se calaram no 14, 15, 16... e assim como todos os 131 anos após o evento. Políticas públicas? Medidas de inserção social? Leis antirracismo? Mutirão de cidadania para fazer documentos para os recém libertos? Algum programa de habitação popular? Algum sistema de cotas? Alguma reparação financeira? Algum negro questionado sobre para onde ia após ser expulso da fazenda que morava? Alguma obra social de igreja ou ONG para acolher os que migravam para as cidades? Já sabe a resposta para essas perguntas, né? Zero medidas para acolher esses milhões de indivíduos que do dia para noite não tinham perspectiva nenhuma de vida fora da escravidão.

A grande pergunta que podemos (e devemos fazer) passados 131 anos da assinatura da lei áurea é a seguinte: o que sobrou da escravidão em nossos dias? Todo e qualquer resquício dessa página ruim de nossa história foi abolido junto com a lei de 1888? É possível responder a essas questões sem mergulhar no Brasil atual?

Os presídios, as favelas, os IMLs, os serviços mal remunerados, o trabalho informal, as calçadas noturnas, os viadutos, os abrigos, os camburões que estampam a cor negra (em sua maioria absoluta), são gritos alarmantes que ecoam pelos quatro cantos do país e respondem essas perguntas com um sonoro, A ABOLIÇÃO NÃO SE CONCLUIU.

O que isso tem a ver com nossos dias? De que forma nosso povo paga hoje pelos erros dos líderes daquela época? A condição da população negra no Brasil de 2019 pouco se difere daquele 13 de maio de festa, seja pelo racismo que mata, humilha, destrói e inviabiliza a vida dessa gente, seja pela pouca oportunidade de emprego formal e digno, seja pelo encarceramento dentro e fora dos presídios a que essa população está tão cotidianamente...

Podemos usar o 13 de maio como data para comemorar, cantar, dançar, refletir, se indignar, se revoltar, podemos usar essa data para tudo, só não para esquecer o que ela representa para o país. Não podemos negar que nossos tempos ainda são marcados por aquela visão de superioridade, de segregação, de preconceito e racismo, tantas vezes disfarçados, mas volta e meia escancarado... Não podemos negar o fato que o 13 de maio de 1888 é mais uma data na trajetória do teatro do absurdo que nossa história se mostrou ser.

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