02/07/2019 às 20h01min - Atualizada em 02/07/2019 às 20h01min

E agora, quem poderá nos defender?

Estamos em 2019 e todo dia temos motivos de sobra pra gritar por alguém que possa nos acudir...

Thiago Abel

Jonathan Lins
Durante décadas crianças de todas as idades viveram alegrias com o vermelhinho Chapolim Colorado, aquele que suas anteninhas e sua marreta biônica sempre apareciam quando algum desprotegido se apegava na última esperança ao dizer, "Oh, e agora? Quem poderá nos defender?". Ele de pronto aparecia e para felicidade todos bradava, "Eu, o Chapolim Colorado!".

Estamos em 2019 e todo dia temos motivos de sobra pra gritar por alguém que possa nos acudir diante dos problemas vividos nesse que já é um ano que muitos pedem que acabe antes que termine.

Em meio a tanta notícia (boa e ruim), os alagoanos estão um tanto perdidos diante da ausência delas (ou pelo menos delas com a qualidade e profissionalismo da categoria no estado) pelo fato dos profissionais das empresas televisivas do estado estarem em greve diante da ameaça de corte de 40% do piso salarial da classe.

Troca de âncoras por estagiários, falta de reportagens, matérias repetidas, trabalhos genéricos de outras praças, erros infantis dos que assumem o lugar dos grevistas, e outras tantas aberrações que nos fazem perceber o quanto profissionais fazem a diferença e falta quando são substituídos por outros com menos experiência.

Terminada a greve a hora é de reorganizar a vida e tocar o barco, como dizia o saudoso Ricardo Boechat, para retornar ao trabalho depois de uma árdua luta com as conquistas de garantias... Mas, só que não. Após o final da paralização firmada em acordo com os órgãos de proteção ao trabalhador (os poucos que ainda restam) os profissionais foram surpreendidos com uma enxurrada de demissões.

E agora? O que resta fazer? O que essa greve tem com nosso tema? Não seria esse mais um fato isolado de uma empresa de um setor que por um motivo individual estaria reavaliando seus custos e cortando na carne?

Na visão desse que vos escreve, NÃO. Em letra maiúscula mesmo, pra evidenciar que avalio essa tosca iniciativa das empresas televisivas do estado como parte de um processo geral de desmonte das causas trabalhistas em nosso país.

Desde 2016, após o afastamento de Dilma, Temer assumiu a cadeira presidencial e também o compromisso de flexibilizar as relações de trabalho, que segundo muitos, estava engessada demais com a consolidação das leis trabalhistas, lá da época do Vargas. De lá pra cá o que vimos? Um desmonte assustador da legislação e do sistema de proteção ao trabalhador com golpes diários a todas as conquistas que tivemos até aqui.

Vimos grávidas serem liberadas para atividades insalubres, vimos terceirização para todas as etapas de produção, vimos quebra da política de reajuste do salário mínimo, vimos fim da contribuição sindical (não para aliviar a carga de tributos do trabalhador, mas para reduzir a força desse mecanismo de luta dos trabalhadores) e vimos em 2019, já com Bolsonaro, o fim do ministério do trabalho.

Reafirmo a visão acima defendida, estamos expostos a um mundo do trabalho sem direitos, sem segurança, com baixa remuneração, absoluta descartabilidade e mais do que nunca sensíveis a todo tipo de desmando de alguns que pensam que funcionário é empregado, e que é melhor trabalho sem direitos do que direitos sem trabalho.

Hoje é redução salarial para os jornalistas, e amanhã? Qual classe será atingida por esse tenebroso momento? Quem se afogará nessa onda de populismo tosco antitrabalhista? Vamos mesmo calar diante das atrocidades? Não temos mais o Chapolim, esse já partiu dessa pra outra melhor, e frase clássica que intitula esse texto agora faz mais sentido do que nunca...

Oh! E agora, quem poderá nos defender?
 
 
 

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