03/02/2020 às 08h09min - Atualizada em 03/02/2020 às 08h09min

1912 não acabou

Lembremos que a liberdade do outro crer também garante a minha de seguir ou não qualquer preceito religioso

Thiago Abel Pantaleão
Reprodução Internet

1912 não acabou. 

O ANO É 1912, estamos no terceiro dia de fevereiro, a ressaca moral sequer bateu a porta dos que dormiram confortavelmente na noite anterior após ter consumado o pior ataque à liberdade religiosa já empreendido nesse país. 

Naquela noite, a capital alagoana foi varrida com ataques violentos aos terreiros de candomblé dos bairros maceioenses orquestrados por pessoas da mais alta elite política e econômica, homens conhecidos por seu temor a Deus e respeito às tradições religiosas e a fé (pelo menos as suas). 

O ano é 2020, estamos no terceiro dia de fevereiro e as redes sociais ecoam gritos contra tudo aquilo que vem das raízes ancestrais africanas em nosso país. Ressaca moral? Assim como os de 1912, nem sequer um fio de arrependimento ou reflexão. 

A cada dia denúncias de casos ligados a intolerância religiosa chegam aos canais da polícia e reforçam a tese que o Brasil tem trilhado um caminho arriscado rumo a construção de um ideal único de fé e expressão religiosa. O fechamento de terreiros, a perseguição religiosa de sacerdotes de religiões de matriz afro, a disseminação de leis buscando obrigar a leitura da bíblia cristã em escolas dos quatro cantos do país são fatores que evidenciam que tipo de tradição religiosa é aceita e qual é abominada socialmente nesse país. 

Pelo princípio da laicidade e da liberdade religiosa, temas claramente defendidos pela constituição federal de 1988, o Estado não pode se acercar de qualquer manifestação religiosa, dando a ela status ou privilégios, nem tampouco perseguir qualquer denominação de modo a garantir a todas, sua liberdade de culto e proteção aos ataques fundamentalistas. 

Na contramão de tudo isso, o que temos visto, sobretudo na Administração federal é um Estado que se inclina a uma única vertente, considerando-a acima de todos, verdade absoluta e digna de todo cuidado, incentivo e proteção, enquanto todas as demais padecem num campo que beira a informalidade ou ainda pior, a designação de heresia, feitiçaria, infiéis e toda sorte de adjetivos medievais. 

Ataques a religião não se limitam invadir templos ou queimar ícones, também são perpetrados diariamente por aqueles que se utilizam dos meios mais absurdos para calar aqueles que destoam de si em suas crenças. 

A quebra de xangô, como ficou conhecido historicamente a noite sangrenta contra terreiros, adeptos e sacerdotes no início do século em Maceió foi o auge de uma sórdida política de perseguição, porém, guardadas as devidas proporções ela ocorre hoje em nossos dias, com todos aqueles que não seguem determinada doutrina ou líderes. 

Que aquele episódio, ou os que ocorrem diariamente não fiquem apenas na memória triste ou na bandeira de luta dos que foram ou são diretamente atingidos, lembremos que a liberdade do outro crer também garante a minha de seguir ou não qualquer preceito religioso.

Relacionadas »
Comentários »