09/09/2019 às 15h00min - Atualizada em 09/09/2019 às 16h30min

Mulher grávida tem DIU inserido incorretamente por enfermeiro em Penedo

Exames necessários para constatação da gravidez não foram realizados antes da implantação do dispositivo

Da Redação - com Peterson Almeida
Peterson Almeida - NN1
Uma mulher de 23 anos, residente de Penedo, teve implantado um Dispositivo Intrauterino (DIU) quando já estava grávida de 12 semanas. O equívoco foi causado pela ausência de prévios testes clínicos que constatam a gravidez, como Beta HCG e ultrassonografia.

A inserção do DIU foi realizada por um enfermeiro, visto que um projeto do Conselho Regional de Enfermagem (Coren-AL), respaldado pelas normas do Ministério da Saúde, tem capacitado os profissionais para a implantação do DIU pelo Sistema Único de Saúde. A iniciativa foi acolhida pelas secretarias de Saúde de Penedo e Arapiraca.
 
O DIU é um método contraceptivo, em que uma pequena haste em forma de Y, ou T, é colocada dentro do útero para impedir a passagem dos espermatozoides e, consequentemente, o encontro destes com o óvulo, evitando assim a gravidez.
 
O procedimento aconteceu no dia 14 de agosto deste ano, no Centro de Diagnóstico em Penedo, sendo coordenado por um enfermeiro; no momento, foi realizado apenas um exame chamado Citologia Oncótica, que é uma avaliação do colo do útero.
 
Perguntada pela reportagem do NN1 se havia desconfiado da gravidez, a mulher, que já é mãe de um menino de 7 anos e de uma menina de 5 anos, disse que chegou a fazer um teste de farmácia, que apresentou resultado positivo, mas que um sangramento a fez acreditar que a menstruação havia retornado, e por isso o exame de Beta HCG não foi realizado.
 
“Eu estava com suspeita de gravidez. Fiz o teste de farmácia e deu positivo. Minha agente de saúde informou que a médica queria me ver para agendar o exame do Beta HCG e foi marcado. Eu fiz uma avaliação no Centro Especializado da Mulher, onde colocaram em observação que eu estava com suspeita de gravidez, e quando saí de lá, fui para o meu local de trabalho e minha menstruação veio. Eu voltei para informar à equipe que minha menstruação tinha vindo e que eu estava com o exame Beta HCG marcado, mas o enfermeiro disse que a menstruação era sinal de que eu não estava grávida e, estando menstruada ou não, poderiam colocar o DIU sem problema. Aí ele agendou para o dia 14”.
 
“Fizeram uma citologia antes. Deitei na cama e eles colocaram (o DIU), mas eu estranhei porque na hora eu não estava menstruada e tive um pequeno sangramento. O enfermeiro estava conversando baixo com ela [uma profissional da equipe], só que não dava pra entender o que era. Depois ele disse ‘terminei, inseri o seu DIU’. Fizeram a ultrassom pra ver se estava no lugar certo, disseram que estava, e não viram feto nem nada. Eu ainda reclamei de dores, mas fui informada que era por causa de um cisto no ovário”, disse a paciente.
 
Alguns dias após, sentindo fortes dores, a mulher ligou para o Centro de Diagnóstico, que disse ser normal o sintoma. No dia 3 de setembro, foi feito um novo exame de farmácia, que apontou a gravidez. A gestante foi até o Centro de Diagnóstico, onde foi realizado um exame específico, que também constatou a gestação.
 
O NN1 conversou com o médico Israel Rodrigues, ginecologista-obstetra responsável pelo acompanhamento pré-natal da grávida, que explicou que, apesar de ser um quadro estável, a mulher sentirá fortes dores durante toda a gestação. “Existem muitos riscos e abortamento na idade gestacional dela, há risco de perfuração uterina, de endometrite, por causa do corpo estranho; por isso o DIU só pode ser removido após o nascimento da criança. Falei com ela hoje, ela está com dores. Acredito que será uma gestação muito dolorosa, diferente do normal. Há risco de que o DIU perfure a bolsa amniótica”, explicou.

Israel falou ainda sobre quais procedimentos normalmente são feitos antes da inserção do dispositivo: “Precisava de uma série de exames a serem solicitados antes da implantação do DIU, como o Beta HCG e Ultrassonografia. São sete exames pedidos, e o Beta HCG deve ser levado no dia de implantação, com data da mesma semana”.

O NN1 entrou em contato com o COREN Alagoas, que informou que está tomando conhecimento do caso e que se pronunciará em breve.
 
 
A polêmica inserção de DIU por enfermeiros
 
O Conselho Regional de Enfermagem de Alagoas (COREN) tem realizado capacitação com enfermeiros para viabilizar a inserção de DIU (Dispositivo Intrauterino) pelo Sistema Único de Saúde. Arapiraca e Penedo aderiram ao protocolo do COREN e o projeto piloto já começou a realizar inserções de DIU nas duas cidades; dentre elas, a do caso citado nesta reportagem. No entanto, o Conselho Regional de Medicina (CREMAL) se opôs à inserção de DIU feita por profissionais de enfermagem, alegando que a prática precisa ser feita por um médico.
 
No último dia 2, o programa NN Entrevista, da Rádio Novo Nordeste, recebeu o enfermeiro e conselheiro do COREN-AL Diego Albuquerque, e a coordenadora Municipal de Saúde da Mulher de Arapiraca, Maria Luiza Bezerra. Os convidados destacaram que a capacidade de enfermeiros realizarem o procedimento de inserção de DIU é reconhecido pelo Ministério da Saúde.

“Me espanta a estranheza de alguns outros profissionais ficarem indagando uma questão que já é reconhecida nacionalmente. Arapiraca fez inserção de DIU, em três anos (2016-2018), e 40 foram feitos pelo SUS. Por essa capacitação, nós fizemos 115 em três dias. Outros municípios já estão nos procurando com interesse de levar essa capacitação para outros lugares”, explicou o Diego. Na ocasião da entrevista, os profissionais mencionaram que nenhuma das inserções feitas por enfermeiros havia tido complicações.
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