11/04/2019 às 09h55min - Atualizada em 11/04/2019 às 09h55min

ESPECIAL - Cães e gatos nas ruas de Arapiraca, um risco à saúde

O portal NN1 fez um balanço da situação dos animais de rua na cidade

Karina Glória - com Waldo Cezar
Waldo Cezar
Em cada canto de Arapiraca que se olha é possível ver ao menos um animal abandonado vagando pelas ruas, terrenos baldios e até cruzando as vias em meio à carros, motos, ônibus e pedestres. Não há uma estimativa exata de quantos bichos vivem nas ruas, mas já é possível notar a aglomeração em pontos como a UNEAL que apresenta uma grande concentração, principalmente de gatos, no Bosque das Arapiracas, nos brinquedos da Praça Ceci Cunha e outros locais.
Para os veterinários, os animais que nasceram na rua ou foram abandonados são considerados como errantes. Já os animais que possuem um lar, mas saem de suas casas para um passeio sem supervisão, são denominados como peridomiciliados.
 

 
De acordo com a médica veterinária Jéssica Algayer, o maior problema nessas 'interações animais' são as chances de transmissão de doenças. "No geral são preocupantes todas as doenças virais, que geralmente as vacinas combatem. Principalmente aqueles casos de doenças que tem uma alta mortalidade como a Cinomose (doença contagiosa que pode causar vômitos, diarreia, dificuldades respiratórias e outros) e a Parvovirose (problemas gastrointestinais ou pode atacar o coração), que são transmitidas através de contato com secreções, fezes de outros animais", explicou a veterinária.

Jéssica destaca a importância da vacinação para evitar a contaminação por essas doenças, mas salienta que mesmo com a imunização em dia, ainda existem outros riscos. “O ideal é que o animal domiciliado fique dentro de casa e não tenha esse costume de dar uma saída, porque não é só a questão de doenças, mas existem casos de briga, atropelamentos que podem prejudicar a saúde do animal”.

Ela também alerta para doenças consideradas zoonoses, que são todas aquelas que afetam o animal e dele pode ser passado para os humanos, como a Leishmaniose. “Hoje em dia o estado de Alagoas é considerado endémico. Mas é importante destacar que os pets são apenas hospedeiros. Ela não depende de um animal dentro de casa depende também do mosquito que é vetor. Querem sempre culpar o cachorro, mas o foco principal é o mosquito”, disse.

Segundo a Secretaria da Saúde (SESAU), dados levantados no ano de 2018, 7 casos de Leishmaniose visceral foram notificados, sendo 5 confirmados e 1 óbito. (Fonte: Sinan - SESAU/AL. Dados Tabulados em 08/10/2018).

Jéssica chama atenção para a necessidade do uso de guias e focinheiras. “Sempre de coleira, sempre. É fundamental que seu animal esteja com a sua guia. Você só pode responder pelo seu animal, se você tiver com ele sob controle. Mesmo adestrados, não é recomendado pois em situações de passeio, muitas coisas podem chamar a atenção do cachorro e fazer com que ele tenha uma ação inesperada. Importante também estar com a focinheira, não aquelas de contenção, mas aquelas de grade que possibilite o animal respirar normalmente, movimentar a boca e ter seu passeio normalmente".

LEI 1697

O município de Arapiraca tem em vigor uma lei, aprovada no ano de 2015, que torna obrigatório o uso de focinheiras para cães de grande porte ao circulares em lugares públicos. A vereadora Aurélia Fernandes, autora da proposta, conta que a determinação ainda não está sendo cumprida pela população e nem fiscalizada pelo município. "Essa lei já existe em alguns municípios, inclusive com placas de sinalização para informar os donos dos animais. Isso é tanto para proteger o animal como o dono e as pessoas que estão perto, mesmo os dito mais dóceis. Infelizmente não está sendo cumprida no município de Arapiraca, mas já é lei".

 

"O executivo, na época, ficou de definir uma secretaria responsável e fazer as orientações normativas. Nós vamos cobrar isso do município. Os Guardas Municipais deveriam estar fiscalizando as praças como uma forma também de garantir a segurança. Esse é o meu objetivo enquanto vereadora", enfatizou Aurélia.

Ela também apontou que a medida não é punitiva e sim de conscientização. "Não se pensou questões de multas para quem descumprir, mas é de importância que a população se conscientize sobre esses cuidados e do cumprimento da lei", ponderou a parlamentar.

Centro de Zoonoses

O diretor do Centro de Zoonoses da cidade Dr. Emanoel Cardoso conta que o órgão funciona há 17 anos em Arapiraca e tem como principal o trabalho de endemias. "O trabalho do Zoonoses funciona desde 2002 e tem o trabalho da endemia que faz a vigilância de doenças como a dengue, a peste. São cerca de 200 pessoas envolvidas que vão de casa em casa na zona urbana e rural do município".

"Inicialmente o centro de zoonoses funcionava como um centro de apreensão para realizar a eutanásia, pois se pensava que se eliminassem os animais de rua, conseguia-se eliminar a raiva, mas isso não resolvia nada. O que diminuía os casos eram as vacinas, que começaram a ser ampliadas as coberturas. Atualmente chegamos a vacinar 95% dos animais da cidade", apontou.

Ele desmistifica a ideia de que a instituição ainda realiza a função de recolher animais nas ruas. "Em 2012 chegou o consenso que os animais não seriam mais apreendidos com o intuito de eutanasiar. Hoje, quase não se fazem mais apreensão de cães e gatos em Arapiraca, com exceção em situações de maior risco. Nós trazemos para cá apenas animais diagnosticados de leishmaniose onde são feitas as eutanásias e recebemos alguns animais de pessoas que pedem que façam a eutanásia, animais em situação terminal", esclareceu o diretor.

 

“Nossa estrutura não dá condições para estarmos abrigando animais. A equipe de endemias trabalha de forma satisfatória para acompanhar esses casos, mas não é feito mais esse recolhimento de animais saudáveis da rua”, reforçou.

Para o diretor, a prioridade para contornar o problema é o controle do nascimentos de novos cães e gatos e a questão da adoção. “A política de controle da população animal de rua, está sendo discutido na secretaria, já encaminhamos uma solicitação para ser feita uma chamada pública para iniciarmos as castrações de cadelas e junto a isso, vamos desempenhar uma campanha no sentido de posse responsável, buscando diminuir a reprodução desses animais. Vamos buscar as ONG’s, colegas veterinários, a OAB, o MP estão nesse caso também para nos ajudar a contornar esses problemas. O que precisamos nos atentar hoje é posse responsável e controle populacional”, disse.

ONG’s de Apoio

Para realizar este trabalho de acolhimento, os animais contam com a atuação de ONG’s voltadas para o resgate e encaminhamento para lares temporários ou fixos, como é o caso da instituição arapiraquense Protetoras, existente há quase 5 anos recolhendo animais de rua que precisam de um lar.

Uma das diretoras da ONG’s Luiza Almeida, explica que a estrutura do órgão. “Atualmente temos a diretoria com duas pessoas e, em média, 5 a 6 voluntários. Estamos com edital aberto para adesão de novos voluntários, porque é um trabalho muito pesado, que necessita de mais mão de obra”.

Ela também frisou os altos custos que implicam no desenvolvimento nas ações em prol do bem estar dos animais. “Nós tínhamos uma sede, mas por questões financeira não temos mais uma sede. Hoje, contamos com nossos seguidores, que disponibilizam lares temporários para esses animais e quando não é possível, a gente pede ajuda dos nossos seguidores para que forneçam lares temporários enquanto o animal é tratado adequadamente”.

“As pessoas precisam se conscientizar que o animal passa a ser parte da família, que ele entende que você é família dele e se você o abandonar esse animal é muito prejudicado. E também que o nosso trabalho não é regado há várias verbas e estrutura... Há toda uma logística que nos impede de acolher todos os animais. Gera custo.” disse.

 

O cuidado complementar

Os pet-shops, estabelecimentos destinados à venda de artigos e serviços destinados à animais de estimações, também cumpre papel de preservação pela vida dos animais. Luís César, proprietário de um desses estabelecimentos na cidade, destaca atualmente, que as famílias enxergam um pet como integrante da família. "O animal hoje é igual um ente da família, antigamente eles eram vistos só como guardas. Mas hoje, é importante tratar bem os pets, não bater, gritar, pois eles são membros da família mesmo e requerem os mesmos cuidados”.

Ele conclui enfatizando os cuidados complementares que contribuem para o bem estar do bicho. “Os pet shops oferecem banhos, escovação, tosa que é bom para amenizar o calor... É bom estar sempre atento ao bem estar do animal. É preciso deixar a vacinação em dias, a vermifugação para manter a imunidade do animal alta e evitar doenças, investir em uma boa ração e dar a quantidade correta de alimento para nutrir bem o pet. De 6 em 6 meses é bom passar pelo veterinário, mesmo com os custos altos, é uma medida importante”, concluiu.
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