PL lidera gasto em ala feminina com aposta eleitoral em Michelle
Partido de Bolsonaro desembolsa o dobro do PT em setor para mulheres. Principais usos incluem passagens aéreas e eventos
Por Dimitrius Dantas e Luísa Marzullo, O Globo
06 de Janeiro de 2026 às 04:13
Na tentativa de ampliar os ganhos políticos com a presença da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro nos palanques em 2026, o PL investiu R$ 16,2 milhões no setor do partido voltado às mulheres. O valor representa praticamente o dobro do desembolsado pelo PT, com R$ 8,3 milhões, e supera também o de outras siglas com bancadas expressivas. Michelle está licenciada do posto e agendas por questões de saúde.
O levantamento foi feito pelo GLOBO com base nas prestações de contas de 2024, as mais recentes disponibilizadas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), e considerou os gastos declarados pelos diretórios nacionais, estaduais e municipais das sete legendas com maior representação no Congresso Nacional.
Os gastos do partido do ex-presidente Jair Bolsonaro nesse recorte estiveram relacionados principalmente a “eventos promocionais” e logística. Entram nessa lista as ações que Michelle tem realizado pelo país com o PL Mulher. No recorte das verbas para a ala feminina, foram R$ 5,2 milhões destinados para eventos. Para efeito de comparação, o PT, partido do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, gastou R$ 130 mil com essa finalidade.
O maior gasto do PL dentro da rubrica de eventos, no valor de R$ 280 mil, foi com uma empresa que realizou o serviço de sonorização, iluminação e estrutura de palco para o “Encontro do PL Mulher”, em Rio Branco, no Acre. Outro evento, em Sergipe, custou R$ 240 mil ao PL Mulher.
Tais eventos reforçam a ligação com o movimento evangélico, em encontros feitos em lugares amplos, com telão, música e camisetas fabricadas especialmente para a ocasião. Os discursos de Michelle, via de regra, misturam elementos da política tradicional com as de um culto neopentecostal e palestras de autoajuda.
Antes de ser preso, o ex-presidente chegou a participar de alguns atos, que servem também como plataforma para possíveis candidatos às Assembleias Legislativas, Câmara e Senado. Após o Supremo Tribunal Federal (STF) ter colocado Bolsonaro em prisão domiciliar, em agosto, por descumprimento de medidas cautelares em um inquérito na Corte, as viagens de Michelle também ganharam a conotação de substituir a presença física do marido — o que reforçou, por sua vez, o coro dos que defendiam que ela fosse apontada como sucessora dele na corrida presidencial.
Michelle estava em uma dessas viagens pelo PL Mulher, no Ceará, no fim de novembro, quando o ex-presidente violou a tornozeleira eletrônica na sua residência, em Brasília. O episódio levou o STF a decretar a prisão de Bolsonaro em regime fechado, na superintendência da Polícia Federal.
O périplo pelo país, por outro lado, ajudou a construir a imagem política da ex-primeira-dama, com foco no eleitorado feminino e no público evangélico. Em comparação com outros nomes da oposição que já foram cotados para a Presidência, Michelle é a que tem a melhor intenção de votos entre as mulheres, segundo pesquisa Datafolha. — Nós somos luz nesse mundo. E o partido das trevas vem para saquear. Como estão visitando igrejas cristãs se eles são a favor de matar crianças no ventre de suas mães? — afirmou Michelle em Londrina, em novembro. Além disso, ela tenta ressignificar algumas pautas identitárias de esquerda. Em um dos comícios realizados pelo PL Mulher, a ex-primeira-dama afirmou, por exemplo, que “a diferença do PL é que as mulheres fazem política com feminilidade e não com feminismo” e sem “demonizar” os homens. PL e Michelle não se manifestaram. — São três fatores que tornam Michelle tão importante: carisma, dedicação e o sobrenome Bolsonaro. Ela viaja por todo o país, recrutando mulheres para o nosso partido — afirma a deputada federal Bia Kicis (PL-DF).
Em 2024, o PL repassou R$ 1,8 milhão em passagens áreas. O desembolso é quase cinco vezes superior ao do Republicanos, segunda legenda entre as analisadas no levantamento que mais gastou na rubrica, com R$ 365 mil. O PT, por sua vez, pagou R$ 199 mil em passagens. Como efeito de comparação, em 2022 os bilhetes tinham custado R$ 20 mil ao PL, número que deu um salto para R$ 1,4 milhão em 2023, ano em que Michelle começou a rodar o país. Segundo os dados informados ao TSE, ela recebe um salário mensal em torno de R$ 30 mil. O PL atribui parte do crescimento no número de filiados à participação de Michelle e da sua caravana com o PL Mulher. Em novembro de 2022, o partido tinha 762 mil filiados e hoje tem 895 mil. O total de mulheres filiadas foi de 365 mil para 397 mil. O presidente da sigla, Valdemar Costa Neto, que já chegou a citar Michelle como presidenciável, aposta nela como cabo eleitoral. Procurado, ele não comentou. De acordo com o PL, foram eleitas 995 mulheres do partido em 2024, entre prefeitas, vices e vereadoras. Disputa e licença O fortalecimento da ex-primeira-dama, contudo, colidiu recentemente com as ambições dos filhos de Bolsonaro, gerando atritos. A disputa por protagonismo ficou evidente no episódio envolvendo a costura de palanques no Ceará, onde Michelle vetou publicamente uma articulação por uma aliança do PL com Ciro Gomes (PSDB), contra o governo do PT. Na ocasião, Michelle criticou o movimento defendido pelos enteados, classificando a aproximação com Ciro como inaceitável.
Inicialmente, a ex-primeira-dama saiu vitoriosa. Bolsonaro determinou a suspensão da aliança com Ciro e ordenou que o senador Flávio pedisse desculpas à madrasta. Essa correlação de forças, no entanto, sofreu um rearranjo com a decisão do ex-presidente de bancar a pré-candidatura de Flávio Bolsonaro ao Planalto. O movimento deslocou novamente o eixo de poder, retirando de Michelle a expectativa de encabeçar a chapa majoritária e acomodando-a em um projeto voltado ao Senado no Distrito Federal.
No início de dezembro, ela optou por um período de submersão, afastandose temporariamente da agenda pública e do comando do PL Mulher, alegando questões de saúde. Nos bastidores do partido, a leitura é que, apesar do investimento financeiro e da popularidade aferida em pesquisas, a ex-primeira-dama teve de ceder à hierarquia familiar imposta pelo marido.
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