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Apesar da inflação, cresce interesse por festas juninas

Pesquisa mostra aumento de brasileiros que pretendem festejar a época neste ano; entenda o que está por trás desse movimento

Por Caroline Vale, SBT News 27 de Junho de 2026 às 12:23
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Apesar da inflação, cresce interesse por festas juninas
“Não cogitei não ir por conta dos preços dos pratos, desde que a entrada fosse gratuita”. A frase da produtora audiovisual Mayra de Lucca, de 39 anos, resume o comportamento de milhões de brasileiros neste São João. Mesmo com a alta nos preços das comidas e dos trajes típicos, abrir mão da festa não parece ser uma opção para boa parte da população.

É o que mostra uma pesquisa do Instituto Locomotiva: 85% dos brasileiros com mais de 18 anos disseram que participariam das festas juninas neste ano, percentual superior aos 81% registrados em 2025, embora a diferença esteja próxima da margem de erro de três pontos percentuais do levantamento, realizado entre 29 de abril e 6 de maio com base nos parâmetros da PNAD, do IBGE.

Os números aparecem em um cenário em que o custo de vida ainda pesa no bolso das famílias. Embora a inflação tenha desacelerado nos últimos meses, os alimentos continuam pressionando o orçamento dos brasileiros. Em maio, o grupo alimentação e bebidas respondeu por cerca de metade da inflação do mês, conforme o IBGE. Nesse cenário, muitas famílias têm adaptado a forma de participar das comemorações.

É o caso de Mayra, que neste ano participou de duas festas juninas na capital paulista com familiares. Antes mesmo de escolher o destino, uma condição já estava definida: a entrada precisava ser gratuita. “Priorizamos festas com entradas gratuitas, pois os preços já são caros para consumir.”

Pesaram ainda fatores como facilidade de transporte, boa estrutura, locais amplos, shows ao ar livre e conforto para acompanhar familiares idosos. Mesmo economizando na entrada, o bolso sentiu o peso da alimentação. Entre os preços encontrados estavam refrigerante em lata por R$ 11, lanche de pernil por R$ 30, quentão por cerca de R$ 22, pastel por R$ 18 e pamonha ou curau entre R$ 20 e R$ 22. No grupo de Mayra, formado por duas famílias de cerca de três pessoas cada, o gasto médio foi de R$ 150 a R$ 180 por família durante o passeio.

A solução foi adaptar o consumo, sem abrir mão das comidas típicas: “Selecionamos o que comer em cada festa, pra não ficar repetindo em todas as festas, assim diversifica os sabores típicos e não gasta com as mesmas coisas.”
As brincadeiras ficaram de fora porque o grupo não tinha crianças. Ainda assim, Mayra destaca que encontrou opções gratuitas, como um espaço com brincadeiras tradicionais de rua, incluindo pião, corda, bambolê e mola.

Para ela, a festa junina continua reunindo diferentes significados: “Um pouco de tudo, cultural pelas músicas do Nordeste, shows e quadrilhas para assistir. E opção de lazer nesta época do ano.”

Festa gratuita vira alternativa ao lazer mais caro

O comportamento observado por Mayra aparece também na pesquisa. As festas de rua e gratuitas lideram a preferência dos brasileiros e foram citadas por 44% dos entrevistados. Na sequência aparecem os arraiais na casa de amigos e familiares (39%) e as festas em igrejas ou quermesses (37%). Os entrevistados puderam escolher mais de uma opção.

Na avaliação do mestre em economia Presley Vasconcellos, o crescimento do interesse pelas festas juninas acontece justamente porque elas conseguem unir tradição e baixo custo de acesso.

“O que explica esse aumento na intenção de participação, mesmo no contexto de inflação, é justamente a inflação. (…) Além de ser uma tradição, as festas ficam próximas da realidade de muita gente que talvez não tem muita renda sobrando, isso porque boa parte das festas são gratuitas, são de fácil acesso e geralmente são locais em que nós já frequentamos, como a escola das crianças, a igreja, o condomínio”, afirma.

Segundo ele, em um momento em que a inflação pesa principalmente sobre os alimentos, muitas famílias substituem opções de lazer mais caras por eventos comunitários. “O aumento do interesse pelas festas juninas é um combinado entre a valorização da cultura popular e também reflete o aumento por busca de opções mais acessíveis de lazer. (…) Principalmente neste ano, que é um ano de Copa, de eleições, as pessoas acabam dando mais valor a sua cultura, principalmente pela ótica nacionalista.”

O economista explica que ir a uma quermesse ou a uma festa de bairro costuma ser financeiramente mais viável do que viagens, cinemas frequentes ou outros programas familiares, especialmente para quem já enfrenta um orçamento apertado.

Orçamento muda, mas a tradição permanece

Mesmo diante dos preços mais altos, um outro grande fator pesa na decisão: o valor afetivo.

“Muita das vezes ter aquele momento de levar o seu filho a caráter vai valer muito mais emocionalmente falando do que de fato aqueles R$ 50 que você vai gastar naquela noite”, diz Presley.

Na prática, isso significa reorganizar as despesas: reduzir outros gastos ou até parcelar compras relacionadas ao evento. “Isso não quer dizer que os brasileiros estejam gastando sem critério. Muito pelo contrário: é uma escolha feita de forma consciente. A pessoa sabe que talvez vá apertar o orçamento, que terá de abrir mão de uma coisa ou outra, e esse redirecionamento do consumo acaba sendo pautado e motivado por esse laço emocional.”

Mayra, por exemplo, claramente não deixou a tradição de lado, mas estabeleceu limites. Ela deixou de visitar algumas festas tradicionais porque cobravam pela entrada: “Tem igrejas tradicionais que queríamos ir, mas cobravam ingresso para entrar.”

Muito além da cultura

As festas juninas também movimentam a economia brasileira e funcionam como um importante motor econômico que impulsiona setores como alimentação, bebidas, artesanato, transporte, hospedagem e produção de eventos.

Esse movimento também é sentido por pequenos empreendedores. Em Sorocaba (SP), a engenheira de produção e confeiteira Ana Carolina Magalhães Lopes começou a vender doces típicos nas festas juninas porque enxergou "como uma oportunidade de faturar um pouco mais com os doces típicos”. Nesta época do ano, ela vende pé de moça com chocolate, queijadinha, espetinho de morango, maçã do amor, canjica, bombom de morango e de uva.

Segundo ela, em 2025, por exemplo, a renda de junho aumentou cerca de 80% em relação aos meses comuns e, no acumulado do ano, representou um acréscimo de quase 15% na renda anual. Para este ano, ela avalia um faturamento parecido, mas se depara com um público mais seletivo: "Com a época coincidindo com a Copa do Mundo, as pessoas acabam escolhendo com mais atenção os eventos que vão participar. Além disso, temos um forte apelo para o emagrecimento neste ano. Na confeitaria, estamos tendo que nos reinventar."

Apesar do aumento nas vendas nesse periodo, a empreendedora afirma que o cenário também exige adaptação: “Os custos dos materiais subiram bastante no último ano e o preço de venda não acompanha. Para não diminuir as margens, é necessário se adaptar.” Ela explica que opta por manter a qualidade dos produtos e, por isso, acaba repassando parte desse impacto ao consumidor.

O dinheiro obtido durante o São João também ajuda a fortalecer o negócio ao longo dos meses seguintes. Segundo Carol, o valor extra costuma ser investido em melhorias e na estrutura da confeitaria. “Pocuramos usar esse dinheiro extra para guardar e investir nos processos e equipamentos durante o ano”, conta. Ela estima que o faturamento da temporada seria suficiente para cobrir cerca de 80% dos gastos de um mês sem as festas típicas.

A festa junina movimenta a economia de diferentes formas. Esse efeito é ainda mais forte em regiões que recebem turistas durante o período de São João, gerando renda para pequenos comerciantes e fortalecendo o consumo local.

A pesquisa do Instituto Locomotiva mostra que o formato da comemoração muda conforme a região do país. No Nordeste, 51% dos entrevistados disseram que pretendiam participar de festas públicas e gratuitas, o maior percentual do levantamento. No Sudeste, esse índice foi de 44%, enquanto no Norte chegou a 43%.

Já no Sul, a principal escolha foram as festas realizadas na casa de amigos e familiares (43%). No Centro-Oeste, predominaram as festas em igrejas e quermesses (42%).

Independentemente do formato, a tradição continua atravessando gerações. Mesmo com o orçamento mais apertado, o brasileiro parece disposto a fazer ajustes para continuar encontrando, nas bandeirinhas, nas quadrilhas e nas comidas típicas, um dos momentos mais afetivos do calendário.

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