A taxa de desemprego no Brasil segue no menor patamar histórico. O índice fechou o trimestre até maio em 5,6%, queda em relação aos 5,8% do trimestre encerrado em fevereiro e o menor já registrado para um mês de maio desde o início da série histórica, em 2012. O resultado veio dentro do esperado pelo mercado financeiro. No mesmo período do ano passado, a taxa de desocupação ficou em 6,2%.
Além disso, a chamada taxa de subutilização da força de trabalho — que reúne pessoas que gostariam de trabalhar mais horas, desempregados, e as que estão disponíveis para trabalhar, mas desistiram de procurar vaga ou ainda não conseguiram buscar emprego — caiu para 13,3%, o menor nível de toda a série histórica iniciada em 2012.
Para analistas, o resultado reforça a leitura de um mercado de trabalho aquecido, com pouca oferta de mão de obra. Uma situação que, segundo economistas, já se aproxima do pleno emprego e deve manter a pressão sobre salários e inflação nos próximos meses.
O desemprego deve seguir em patamar baixo em 2026 mesmo com os juros ainda elevados, em 14,25% ao ano, afirma João Mário de França, pesquisador do FGV Ibre.
Uma combinação de fatores explica esse mercado aquecido, diz França: o avanço da formalização, a valorização do salário mínimo, os programas de transferência de renda e o peso do setor de serviços, que responde por mais de 70% da economia. Em ano eleitoral, há mais estímulos fiscais de governos federal e estaduais à atividade econômica, lembra ele.
— É como se esses vetores atuassem numa direção contrária à do Banco Central, que tenta, pela taxa de juros, reduzir o crescimento da economia — afirma o pesquisador. — Não seria equivocado dizer que a economia brasileira já opera além de sua capacidade potencial (com pleno emprego), dada a disputa por mão de obra e o crescimento da massa salarial.
Efeito na inflação
Esse movimento dificulta um ciclo mais intenso de cortes da Taxa Selic, diz França. Embora o BC já tenha iniciado a redução dos juros, o processo será curto e moderado, e a inflação brasileira tende a permanecer próxima ao teto da meta, hoje em 4,5%, acima do centro de 3%, afirma:
— Os salários são um canal de pressão para a inflação. E o Brasil vem convivendo há bastante tempo com a inflação no limite superior da meta.
Marcelo Fonseca, economista-chefe do Grupo CVPAR, também diz que o desemprego deve permanecer baixo no restante do ano.
— A economia continua superaquecida em função da forte expansão fiscal. É por essa razão que a inflação continua resiliente.
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Com relação à taxa de subutilização da força de trabalho, William França, analista da pesquisa do IBGE, ressalta que o indicador aponta que o chamado estoque de trabalhadores disponíveis para serem absorvidos pelo mercado está se esgotando.
— Esse grupo, que já foi de quase 30% em 2021 durante a pandemia, vem caindo e chegou a 13,3%. Ou seja, o mercado está de fato aquecido e absorvendo toda a mão de obra possível. Isso justifica estar ficando mais escassa a mão de obra — afirma, ressaltando que o resultado é uma pressão sobre o custo da mão de obra. — As condições de trabalho e da qualidade das ofertas terão que melhorar.
João França, do FGV Ibre, afirma que parte desse contingente quer trabalhar mais horas, mas está na informalidade e poderia migrar para o setor formal com maior qualificação. Outra parte é a população que desistiu de procurar uma vaga e vive principalmente no Norte e no Nordeste, regiões de menor dinamismo econômico.
— Teria que haver políticas públicas específicas para incentivar a busca por emprego — defende.
Emprego público
Mais de meio milhão de pessoas (558 mil) conseguiram um trabalho entre março e maio, fazendo o contingente de ocupados do país crescer 0,5%, para 102,7 milhões de trabalhadores. Ao mesmo tempo, 6,1 milhões buscavam emprego, praticamente o mesmo número do trimestre anterior, de 6,2 milhões.
O aumento da ocupação foi puxado pelo setor público. Dos 558 mil novos ocupados, cerca de 455 mil passaram a integrar este grupo, embora sem a carteira assinada. Segundo França, analista do IBGE, boa parte dos profissionais foi para escolas. É um período em que a contratação de servidores temporários cresce para atender à rede de ensino. Além disso, é como se o mercado de trabalho tivesse ficado “estagnado” em um patamar baixo:
— As empresas neste momento não estão mais desligando (trabalhadores), mas o aumento das contratações ainda não aconteceu. O mercado vai se organizando para o segundo semestre, que é um período mais aquecido da economia.
O ingresso dessa mão de obra sem carteira assinada no setor público explica a redução de 3,1% no rendimento médio mensal dos trabalhadores do setor. Como esses novos empregados recebem salários inferiores à média da categoria, o rendimento do grupo caiu 3,1%, ou R$ 172, já descontada a inflação.
Apesar disso, o rendimento médio real de todos os trabalhadores do país permaneceu estatisticamente estável, em R$ 3.726, porém 4% mais alto que no mesmo período do ano passado.