A CBF realizou nesta terça-feira (14), em sua sede na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio de Janeiro, uma reunião com seus vice-presidentes e presidentes de federações estaduais. Oficialmente, a entidade divulgou que o encontro seria para abordar avanços estruturais do primeiro semestre e o planejamento para os ciclos das Copas do Mundo de 2027 e 2030. Porém, serviu também para acalmar os ânimos em uma tentativa de estabilizar o ambiente interno.
O encontro foi convocado em meio a turbulências nos bastidores da CBF por conta da eliminação precoce na Copa do Mundo, diante da Noruega, aliada às denúncias de viagens pessoais do presidente Samir Xaud faturadas pela agência oficial da entidade. A imprensa nacional publicou documentos mostrando os gastos de viagens da irmã do presidente, além de uma influenciadora e de uma empresária, que foram faturados via gabinete da presidência e de federações.
— A confirmação de que Samir Xaud é o presidente da CBF e de que as federações e os
clubes
continuam unidos e unificados. Entendo que não precisamos nos defender de nada. Temos que atacar. Tem um monte de gente safada, mau-caráter, que não se conforma em ter uma gestão nova, em viver um novo momento, e tenta nos atacar. Nordestino só tem medo de cara feia quando a pessoa tem fome. Fora isso, se é para brigar, a gente briga o tempo todo. Xaud é o homem, Samir é o presidente — disse o presidente da Federação Pernambucana de Futebol, Evandro Carvalho.
O presidente da Federação do Tocantins, Leomar Quintanilha, chefe da delegação brasileira na Copa do Mundo, disse que os problemas envolvendo Xaud não afetaram o grupo.
— Nada afetou o trabalho da comissão
. A CBF foi muito técnica. Escolheu um hotel confortável e isolado, que permitiu a convivência entre os atletas. Eles foram se conhecendo e não tivemos repercussão nenhuma. Não é hora de caçar bruxas. A hora agora é de melhorar o trabalho — afirmou.
Disputa de poder em duas frentes
Os problemas se somam a uma disputa interna de poder na CBF, mas que se divide em outra frente. Enquanto a entidade tirou a Cazé TV, controlada pela Livemode, da disputa pelos direitos de transmissão da Copa do Brasil, a liga Futebol Forte União (FFU), que escolheu a empresa para negociar os ativos do bloco de clubes, vem sofrendo ataques na Justiça de membros de pouca expressão no futebol nacional.
O CSA entrou com representação no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), obtendo uma decisão no sentido de que a parceira da FFU, Sports Media Entertainment (SME), não pode criar obstáculos para saída de membros do bloco. O Amazonas FC entrou na 12ª Vara Cível de Manaus com uma contestação das garantias para emissão de R$ 950 milhões em debêntures pela SME. Como confirmou o presidente do clube ao Lance!, a ideia é reaver os direitos de transmissão.
E é nesse ponto que a disputa de emissoras se conecta à disputa interna de poder na CBF. Francisco Mendes, filho do ministro do Superior Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes, é uma eminência parda com enorme poder nos bastidores da entidade. Ele inclusive chegou a ligar para presidentes de federações após as denúncias contra Xaud para apaziguar a situação e reforçar sua relação com os dirigentes. Mendes tomou a frente das negociações com os clubes por uma liga única sob a tutela da CBF. E, embora isso não seja dito abertamente, há interesse de que os direitos estejam liberados para uma negociação futura em conjunto.
A Globo fez proposta para manter a exclusividade das
transmissões
da Copa do Brasil até 2030, com planos de ampliar jogos por streaming da GeTV. A relação nos bastidores entre a CBF e a Cazé TV não é das melhores, e vale lembrar que um dos vice-presidentes de maior longevidade no cargo da confederação, Fernando Sarney, é dono do grupo Mirante, cuja emissora é afiliada da Globo.
Sarney foi o interventor que conduziu o processo eleitoral vencido por Samir Xaud, em 2025. O pai do atual presidente da CBF, Zeca Xaud, foi presidente por longos anos da Federação Roraimense de Futebol, e ambos têm um aliado em comum, o ex-senador Romero Jucá, do Movimento Democrático Brasileiro (MDB), o mesmo partido pelo qual Samir tentou pela segunda vez se eleger — sem sucesso — deputado. Na ocasião, em 2022, ele ficou como suplente.
Jucá é aliado político da família Sarney desde os anos 80, e um dos pontos de atrito entre Samir e Fernando foi a exoneração na CBF de um dirigente do beach soccer, Eurico Pacífico, em setembro de 2025. Ele tinha o apoio do clã maranhense.