O número de candidatos nas eleições de 2026 é o menor registrado no país em 20 anos. De acordo com dados do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), o pleito deste ano contabiliza 20.985 candidatos, a menor quantidade desde 2006, quando foram registrados 19.263 nomes.
Em relação a 2022, a redução nas candidaturas chegou a quase 30%, quando 29.262 brasileiros concorreram às eleições gerais.
“Uma das explicações para o número reduzido de candidaturas é a redução do número efetivo de partidos competitivos. O Brasil chegou a ter 36 partidos com representação na Câmara dos Deputados em 2018. Atualmente, são 30 partidos registrados, dos quais 22 possuem cadeiras na Câmara”, explica o cientista político Celso Fernandes, da Abradep (Academia Brasileira de Direito Eleitoral e Político).
Segundo o especialista, soma-se a esse fator o fim das coligações nas eleições proporcionais. Desde 2020, os partidos não podem mais se unir para disputar conjuntamente cadeiras de deputado e vereador.
Além disso, Fernandes indica uma terceira mudança: a Lei n.º 14.211/2021, que reduziu o limite de candidaturas que cada partido pode registrar nas eleições proporcionais, passando de até 150% das vagas para 100% mais uma candidatura.
O cientista político ressalta que a queda no número de postulantes não representa, necessariamente, uma onda de “desinteresse” pela política, mas sim uma diminuição do espaço institucional para candidaturas.
“Antes, era possível imaginar uma chapa extremamente ampla, com políticos profissionais, lideranças locais, vereadores, ex-vereadores, empresários, sindicalistas, lideranças religiosas, celebridades e candidatos com diferentes graus de competitividade”, relata. “Agora, com o limite de 100% das vagas mais uma candidatura e com a maior concentração de recursos públicos, o custo de oportunidade de colocar um nome pouco competitivo na chapa tornou-se maior”, acrescenta.
Concentração de esforços
A vice-presidente da Abradep, Anne Cabral, avalia que os dados refletem uma nova tendência de comportamento eleitoral que, segundo ela, é impulsionada pela criação das federações partidárias.
“Hoje, o país conta com 30 partidos políticos, e, desses, 11 estão reunidos em federações. São cinco federações registradas no TSE atualmente. Nesse quadro, os partidos precisam concentrar esforços, e não descentralizá-los”, analisa.
Pluralidade política
Para acompanhar a redução de candidaturas sem abrir mão da pluralidade política, o advogado especialista em direito eleitoral Angelo Arripia defende que as legendas adotem mecanismos de democracia intrapartidária, maior transparência na escolha de candidaturas e uma revisão nos critérios de distribuição de recursos e limites de chapas.
“Em síntese, o que estamos assistindo juridicamente não é apenas uma diminuição do número de candidatos. É uma transformação do modelo partidário brasileiro: menos fragmentação, maior coordenação nacional e maior concentração das decisões estratégicas e financeiras dentro dos partidos e federações”, destaca.
Ainda no tema da pluralidade, Anne Cabral alerta para a urgência de os partidos criarem estratégias voltadas à atração de jovens e mulheres.
“A estrutura dos partidos políticos ainda é muito tradicional, com reuniões presenciais e à noite, por exemplo. Sendo assim, como as mulheres participam? Quantas atividades têm recreadores para cuidar das crianças enquanto as mulheres participam das atividades partidárias?”, questiona Cabral.
Desafios na fiscalização
Segundo Arripia, mesmo com as candidaturas enxutas, as eleições deste ano apresentam novos desafios de fiscalização para o TSE, entre eles o financiamento das campanhas, a aplicação de recursos públicos e a apuração de abuso de poder político e econômico, principalmente no ambiente digital.
“Portanto, mesmo com um universo menor de concorrentes, teremos campanhas potencialmente mais profissionalizadas, melhor financiadas e com uma capacidade de comunicação digital muito maior, o que exige uma fiscalização mais rápida e tecnicamente sofisticada”, conclui.