Com novo calendário brasileiro, clubes 'atacam' o mercado neste início de ano

Quem 'dormir' na hora de trazer reforços e não aprimorar seu elenco pode comprometer o final da temporada

Por Davi Ferreira, O Globo 06 de Janeiro de 2026 às 05:02
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Com novo calendário brasileiro, clubes 'atacam' o mercado neste início de ano
Botar o pé no acelerador do planejamento ou não? Este é um dos grandes dilemas para os principais clubes do país. Uma temporada diferente, com um início “para valer” antecipado — Brasileirão começa no próximo dia 28 — por conta da Copa do Mundo no meio do ano, provoca mudanças em diversos aspectos, como o condicionamento físico dos atletas, os Estaduais e, principalmente, o mercado da bola. Na segunda reportagem sobre o novo calendário nacional, o GLOBO mostra que quem “dormir” na hora de trazer reforços e não aprimorar seu elenco pode comprometer o final da temporada.

A janela de transferências de janeiro até abril sempre foi a mais longa e importante para os brasileiros. Os Estaduais sempre começaram cedo e seguem assim, mas havia a possibilidade de escalar times alternativos e lançar aos poucos os principais jogadores até o início das competições nacionais e internacionais. Agora, será impossível.

No Rio de Janeiro, Fluminense e Botafogo anunciaram oficialmente reforços. O tricolor fechou com o zagueiro Jemmes e o lateral-esquerdo Guilherme Arana, enquanto o alvinegro trouxe o atacante uruguaio Lucas Villalba. Já Flamengo e Vasco têm nomes engatilhados. O rubro-negro acertou com o zagueiro Vitão e agora tenta o atacante Marcos Leonardo, do Al-Hilal, da Arábia Saudita, após não conseguir negociar com o Cruzeiro por Kaio Jorge. Jogador da mesma posição, o colombiano Johan Rojas está próximo do cruz-maltino.

Novidades no Santos

Ampliando o leque para outros estados, o Santos não teve uma virada de ano tímida. Além de garantir as compras efetivas do zagueiro Zé Ivaldo e do atacante Barreal, o Peixe renovou com Neymar por mais uma temporada e contratou por empréstimo Gabigol junto ao Cruzeiro — vínculo até o fim do ano. Após um 2025 conturbado, quando brigou para não voltar à Série B, o clube paulista aposta na dupla.

— Com os campeonatos começando mais cedo, foi necessário acelerar os processos de montagem de elenco, as saídas, chegadas e renovações, como foi o caso do Neymar — diz o presidente do Santos, Marcelo Teixeira, em entrevista ao GLOBO: — Um ponto positivo é que já iniciamos 2026 com um executivo de futebol (Alexandre Mattos) e uma comissão técnica definidos. Esses fatores são fundamentais para que a temporada seja bem-sucedida.

Nesta janela, o Palmeiras tirou o volante Marlon Freitas do Botafogo e o Atlético-MG repatriou o lateral-esquerdo Renan Lodi. Porém, o mercado ainda não está “agressivo” nas contratações. O encerramento recente do calendário pode ser um fato. O Brasileirão acabou em 7 de dezembro, mas Flamengo (Intercontinental), Corinthians, Vasco, Fluminense e Cruzeiro (Copa do Brasil) seguiram em ação. A decisão da Copa do Brasil entre corintianos e cruz-maltinos foi no último 21.

— O cenário é, em geral, de desordem, porque temos um campeonato que tinha, em novembro, três de cada quatro clubes sem segurança alguma sobre que competições disputariam em 2026 — ressalta Thiago Freitas, COO da Roc Nation Sports, empresa de agenciamento de atletas.

No mercado dos técnicos e diretores, todos os 20 clubes da Série A entraram em 2026 com os escolhidos definidos. Corinthians trouxe o executivo Marcelo Paz e o Flamengo renovou com o treinador Filipe Luís por dois anos. Cruzeiro (Tite), Grêmio (Luís Castro) e Internacional (Paulo Pezzolano) também agiram rápido para ter seu comandante, assim como o Botafogo, que fazia o inverso há cerca de um ano.

Botafogo teve que mudar

Então campeão da Libertadores e do Brasileirão, o clube postergou para fechar com o substituto de Artur Jorge, enquanto John Textor, dono da SAF, sustentava o discurso de que a temporada começaria apenas em abril, dando preferência a ter um time completo apenas no início do Brasileiro. Desta vez, o alvinegro agiu rápido ao buscar o argentino Martín Anselmi, ex-Porto.

— Textor não errou nessa colocação. Os Estaduais que os grandes clubes disputaram nos últimos dez ou quinze anos não agregaram nada a qualquer campanha nacional bem-sucedida. Claro, com o novo calendário, todos estão cientes de que não existe margem para meses de avaliação — avisa Thiago Freitas.

O novo calendário colocará à prova mais uma vez as convicções — e as paciências — das diretorias. Ao invés de os trabalhos de técnicos serem ameaçados nos Estaduais, agora as cascas de banana estarão nas primeiras rodadas do Brasileirão.

Serão seis meses de uma temporada em que as dinâmicas ainda são desconhecidas, mas a expectativa de todos é de chegar à Copa do Mundo em melhor forma e vivo nas competições. Em junho, o calendário para e só retorna em meados de julho, quando também se abre a janela do meio de ano.

— A Copa é uma vitrine gigantesca. Para os clubes, ceder atletas às seleções significa também ver os seus ativos se valorizarem. O período que antecede o torneio é fundamental para os atletas em termos de foco, desempenho e preparação. A consequência disso é o comportamento do mercado e o peso das janelas de transferência, já que todos querem chegar no mais alto nível possível— diz Teixeira.